Um experimento within-subjects com 162 estudantes de graduação, publicado em Behaviour & Information Technology (DOI 10.1080/0144929X.2025.2574368), mediu distração percebida, flow e desempenho em aprendizagem online com e sem smartphone. A ausência do aparelho aumentou o flow e reduziu a distração percebida. Apenas o flow melhorou diretamente o desempenho. A presença do telefone só prejudicou o flow de forma significativa quando houve uso ativo. Estudantes com maior nomofobia (medo de ficar sem o celular) ficaram mais distraídos em qualquer condição e tiveram desempenho significativamente melhor quando o aparelho estava ausente.
O artigo, assinado por Kathrin Figl, Renata Santiago Walser, Matthias Weber e Ulrich Remus, saiu no volume 45, número 10, páginas 2213 a 2233 da revista. O desenho colocou os mesmos participantes nas duas condições (presença e ausência do smartphone), o que permite comparar o efeito dentro da mesma pessoa, e não só entre grupos diferentes. Os autores usaram modelos lineares mistos (linear mixed-effects) para analisar flow, distração e desempenho.
O que o experimento mediu e o que encontrou?
A pergunta prática do estudo é antiga na literatura de “mere presence”: o celular à vista, mesmo sem uso, drena atenção e piora o desempenho? A evidência prévia era mista e pouco testada em contextos reais de aprendizagem online. O trabalho preenche essa lacuna ao observar, no mesmo participante, três desfechos: distração percebida, experiência de flow (imersão na tarefa) e desempenho na aprendizagem online.
Os resultados centrais, reportados no resumo e na discussão do artigo, são três. Primeiro, a ausência do smartphone elevou o flow e reduziu a distração percebida. Segundo, só o flow se associou de forma direta a melhor desempenho; reduzir a distração percebida, sozinha, não bastou para explicar o ganho. Terceiro, a presença do aparelho só interrompeu o flow de maneira clara quando houve uso ativo. A mera presença, na amostra como um todo, não reduziu o desempenho de forma significativa.
Há, porém, um moderador: a nomofobia. Participantes com escores mais altos de medo de ficar sem o telefone relataram mais distração independentemente da condição e mostraram desempenho significativamente melhor na condição de ausência. A interação entre nomofobia e presença versus ausência do smartphone foi significativa (Odds Ratio = 0,91; p = 0,003 no trecho reportado pelos autores). Quem tem baixa nomofobia foi menos afetado pela presença do aparelho.
Em outras palavras, o ganho de performance não veio de “sentir menos distração” como mecanismo único. Veio do aumento do flow. E o grupo que mais se beneficia de tirar o celular do ambiente de estudo é justamente quem mais teme ficar sem ele.
O que é nomofobia e por que importa no estudo?
Nomofobia (de “no mobile phone” e “phobia”) descreve o desconforto ou medo associado à possibilidade de não ter acesso ao smartphone ou aos serviços que ele oferece. Não é diagnóstico oficial de transtorno, mas é um construto usado em pesquisa para medir dependência subjetiva do aparelho. No desenho deste experimento, a nomofobia funciona como moderador: altera a intensidade do efeito da ausência do telefone sobre o desempenho.
O achado é contraintuitivo para quem imagina que quem “precisa” do celular perto rende mais com ele à mão. No estudo, quem pontua alto em nomofobia rende mais quando o aparelho está ausente. A interpretação alinhada aos dados é que, para esse perfil, a presença (e o risco de checagem) pesa mais no fluxo cognitivo. Remover o estímulo reduz a disputa atencional e abre espaço para a imersão na tarefa.
Quem pontua baixo em nomofobia sofre menos com o telefone à vista. Para esse grupo, a mera presença não é o principal vilão do desempenho. O uso ativo continua sendo o fator que quebra o flow, conforme o próprio artigo.
Uso ativo, mera presença e o que isso muda na prática
O trabalho separa dois fenômenos que costumam ser misturados. Uso ativo é abrir o aparelho, responder mensagem, rolar feed, olhar notificação. Mera presença é o telefone ligado ou desligado sobre a mesa, visível, sem interação. Na amostra geral, a mera presença elevou a distração percebida, mas não bastou, sozinha, para derrubar o desempenho. O uso ativo foi o que interrompeu o flow.
Isso não autoriza deixar o celular “só olhando”. A distração percebida sobe com a presença. O flow, que é o caminho até o desempenho, cai quando alguém de fato mexe no aparelho. A recomendação operacional que decorre dos dados é direta: se o objetivo é desempenho, o canal crítico é proteger o flow. Tirar o telefone do ambiente reduz distração e eleva flow. Se o aparelho precisa ficar por perto, o custo maior vem do uso, não só da visão.
Para quem tem nomofobia alta, a ausência deixa de ser detalhe e passa a ser alavanca de desempenho. É nesse subgrupo que a diferença entre “celular na mesa” e “celular fora da sala” aparece com mais força nos números.
Como montar uma sessão de estudo de 50 a 60 minutos com base no achado
O estudo não testou concurseiros da Polícia Rodoviária Federal. Testou estudantes de graduação em aprendizagem online. Ainda assim, o mecanismo (flow como mediador do desempenho; uso ativo como disruptor; nomofobia como moderador) se aplica a qualquer bloco de estudo concentrado com material digital.
Uma sessão de 50 a 60 minutos alinhada aos achados começa com o aparelho fora do campo visual. Outra sala, gaveta fechada em outro cômodo ou modo avião com o telefone longe da mesa são equivalentes funcionais à condição de ausência: o estímulo some e a checagem deixa de ser um gesto de um segundo. Notificações mutadas com o celular ainda à vista cobrem só parte do problema: cortam o uso por impulso sonoro, mas mantêm a presença para quem tem nomofobia alta.
Durante a sessão, o material de estudo (PDF, plataforma, vídeoaula, banco de questões) fica na tela principal. O telefone não é “apoio” de timer se isso exige tirá-lo do outro cômodo a cada pausa. Timer no computador ou relógio de mesa resolve o controle de tempo sem reintroduzir o aparelho.
Ao fim dos 50 a 60 minutos, a pausa pode incluir o celular. O ponto do experimento não é banir o smartphone do dia. É impedir que ele dispute o flow no bloco em que o desempenho importa. Repetir o ciclo (ausência, bloco, pausa) é rotina de sessão, não discurso sobre vício.
Por que o flow importa mais do que a sensação de distração
Flow, no sentido usado pelos autores, é imersão sustentada na tarefa: atenção concentrada, sensação de controle e continuidade sem interrupções. No modelo do estudo, esse estado é o elo entre o ambiente (telefone presente ou ausente) e o resultado (desempenho na aprendizagem online). A distração percebida caiu na ausência do smartphone, mas não foi o mediador estatístico do ganho. O flow foi.
Isso tem consequência prática. Uma sessão em que a pessoa “se sente menos distraída” mas continua alternando abas, respondendo mensagens ou checando o relógio do celular ainda quebra o flow. O protocolo alinhado aos dados privilegia blocos contínuos, sem o aparelho como válvula de escape. Cinquenta a sessenta minutos sem o telefone à mão é um formato compatível com o desenho: tempo longo o bastante para entrar em imersão e curto o bastante para caber em rotina diária.
Em ambientes de estudo para carreira policial, o material costuma ser denso (legislação, jurisprudência, questões). O custo de cada interrupção sobe. O experimento não mediu esse conteúdo específico, mas o mecanismo do flow não depende da disciplina: depende de manter a atenção na tarefa sem o smartphone competindo por ela.
O que o estudo não diz
O artigo não afirma que todo estudante melhora igualmente ao esconder o telefone. A mera presença, na amostra como um todo, não reduziu o desempenho de forma significativa. O ganho médio passa pelo flow. O ganho maior concentra-se em quem tem mais nomofobia.
Também não transforma “distração percebida” em sinônimo de pior nota. Distração caiu na ausência do smartphone, mas o caminho estatístico até o desempenho passou pelo flow. Políticas de sala ou de home office que só pedem “não se distrair”, sem alterar a disponibilidade do aparelho, atacam o sintoma e não o mediador.
Por fim, o desenho é within-subjects em contexto de aprendizagem online de graduação. Generalizar para plantão, ronda ou prova presencial exige cautela. O que se extrai com segurança é o mecanismo: ausência eleva flow; flow eleva desempenho; uso ativo quebra flow; nomofobia modera o benefício da ausência.
Erro comum ao ler o resultado
O primeiro erro é tratar o estudo como prova de que “celular na mesa sempre piora a nota”. Na amostra completa, a mera presença não derrubou o desempenho de forma significativa. O que a presença fez, de modo consistente, foi elevar a distração percebida. O desempenho caiu de forma mais clara quando houve uso ou, no subgrupo de alta nomofobia, quando o aparelho permaneceu disponível.
O segundo erro é achar que basta silenciar notificações. Silenciar reduz uso ativo por estímulo externo. Não remove a presença. Para quem tem medo de ficar sem o telefone, a presença continua relevante.
O terceiro erro é inverter a lógica da nomofobia: “se eu fico ansioso sem o celular, preciso deixá-lo perto para render”. Os dados apontam o contrário para esse perfil. Ansiedade de separação não autoriza a conclusão de que a presença melhora o estudo. No experimento, alta nomofobia + ausência = melhor desempenho relativo.
O que muda para quem estuda em blocos longos
Quem organiza o dia em blocos de 50 a 60 minutos pode usar o achado como regra operacional, não como moral. Antes do bloco: celular fora da mesa e, de preferência, fora da sala. Durante o bloco: só a tarefa. Depois do bloco: pausa com ou sem aparelho, a escolha é secundária.
Quem se reconhece no perfil de checagem frequente (medo de perder mensagem, urgência de olhar a tela, desconforto com o telefone longe) é exatamente o grupo para o qual a ausência mais paga. Não é questão de força de vontade narrada. É o moderador que o estudo mediu.
Educadores e quem desenha ambientes de aprendizagem online encontram no artigo uma recomendação explícita: otimizar a posição do smartphone e mitigar distrações, com atenção especial a estudantes propensos à nomofobia. Tirar o aparelho do ambiente de estudo não é detalhe de etiqueta. No desenho testado, é variável que altera flow e, por meio dele, desempenho.
Publicado para leitores de QbStudy.com.